O CSI das árvores

Conheça a história da bióloga Sandra Florsheim, que desenvolveu uma infalível técnica para combater o comércio ilegal de madeira

Em uma casa de estilo colonial de 1926 localizada dentro do Parque Estadual Alberto Löfgren, o antigo Horto Florestal, na cidade de São Paulo, a bióloga paulistana Sandra Florsheim acumula às suas funções, de anatomista de madeira (isso mesmo!) e curadora da xiloteca (nome dado a arquivos que guardam espécies de árvores) do Instituto Florestal, uma atividade ainda mais inusitada: de consultora da Polícia Militar Ambiental (PMA). Soou estranho? Rodeada por cerca de 8 000 amostras de 1 000 tipos diferentes de troncos, Sandra atua como uma CSI da madeira. Em seu laboratório, ela fica à espera de mensagens – que costumam vir via WhatsApp e por e-mail – de investigadores e delegados em busca de seu auxílio.

Em uma operação de 130 oficiais, divididos em 14 localidades de São Paulo, para vistoriar pátios de madeireiras cheios de pilhas de tábuas, vigas e pranchas. Os homens fardados tiraram as dimensões de todo o material, contabilizaram a quantidade em metros cúbicos e conferiram se as informações condiziam com o que foi declarado na emissão da nota fiscal pela compra do produto vindo da Floresta Amazônica. O objetivo é impedir a comercialização de materiais ilegais, frutos de desmatamentos que ameaçam o bioma brasileiro.

O que os policiais não costumam conseguir fazer sozinhos é garantir que, por exemplo, um pedaço identificado como Freijó, árvore que pode chegar a 26 metros de altura, seja de fato dessa espécie e não Mogno, que corre risco de extinção. Por isso, antes era comum que fossem enganados por comerciantes ilegais. A solução para acabar com a farra veio de Sandra: a bióloga desenvolveu um sistema capaz de identificar online as madeiras encontradas. E, assim, flagrar os criminosos.

Para cada árvore há um tipo de impressão digital. São linhas e poros que tornam uma espécie diferente da outra. Reconhecer essas particularidades, porém, exige habilidade, normalmente exibida somente por biólogos treinados. Entretanto, Sandra percebeu que poderia popularizar esse conhecimento (e repassá-lo aos agentes policiais) com o uso de apenas três equipamentos: um laptop, um microscópio portátil e um suporte para deixar este último na posição correta.

A ideia teve início em 2007, quando ela acompanhou a polícia ambiental em pontos de controle para o início do projeto “Estado de São Paulo, Amigo da Amazônia”. Logo ela percebeu que a sua contribuição era pequena perto do que a demanda exigia. Apenas em 2008, para se ter noção, 6 000 toneladas de madeira foram apreendidas no estado paulista. Então, após uma consulta dermatológica, ela percebeu que o mesmo tipo de dispositivo para analisar manchas na pele poderia ser replicado para identificar as “manchas” das árvores. Hoje, os policiais transportam o kit fabricado por Sandra e, com o microscópio conectado ao computador, enviam imagens das perícias à expert, que faz o laudo em seu laboratório e responde aos oficiais em 15 minutos. Com isso, as operações passaram a ser mais efetivas.

Com seu método, ela treinou mais de 500 policiais. No seu laboratório, há dois anos, analisava cerca de 1 500 imagens por mês. A técnica, inclusive, começou a ser imitada em Mato Grosso do Sul e no Pará.

Contudo, esse volume de trabalho foi cortado em outubro de 2014, quando a verba para a contratação de sua equipe não foi renovada. Por mais que ela consiga ver parte das fotos sozinha, o treinamento de novos oficiais para o manuseio da tecnologia exige que sejam formados grupos pequenos de auxiliares. Ao mesmo tempo em que no Brasil o seu trabalho foi desvalorizado, em janeiro de 2015 Sandra viajou a convite do governo americano para os Estados Unidos e, lá, deu uma palestra sobre a identificação de madeira em tempo real. No mesmo ano, também financiada pelos EUA, desembarcou na Tailândia para mostrar os resultados do trabalho que vem desenvolvendo.

“A madeira ilegal também entra nos Estados Unidos e o governo deles não quer isso por lá. Por isso incentivam que eu exiba o meu trabalho em outros países, nos quais são cortadas as árvores em risco de extinção”, explica Sandra. Na Tailândia, o mercado consumidor chinês faz com que a procura pela espécie Rosewood transforme as florestas em zonas de conflito entre quem desmata e autoridades federais. No Camboja, o metro cúbico dessa árvore chega a ser vendido por 5 000 dólares. Na China o valor é multiplicado por dez. Sendo que uma cama feita com o material pode custar 1 milhão de dólares. Para proteger a mata nativa, o governo tailandês anunciou neste ano a compra de 4 000 espingardas. Por outro lado, os traficantes usam fuzis AK-47 e granadas.

Além de ser uma tecnologia barata, a vantagem com a identificação online é que os policiais não são responsabilizados por acertar ou errar na avaliação da madeira. “Trata-se de uma técnica difícil, que exige experiência na área”, pontua a bióloga paulistana. Na operação que começou na última terça-feira (9), foram apreendidos 694 metros cúbicos de toras, o equivalente a 46 caminhões cheios, e as multas somadas chegaram ao total de 1 milhão e 700 000 de reais. Nos primeiros seis meses deste ano, o valor das penalizações já é de 4,5 milhões de reais.

Isso, contudo, nem se compara ao prejuízo decorrente das árvores derrubadas, que impulsionam os índices de desmatamento na Amazônia. Em novembro do ano passado, o Ministério do Meio Ambiente divulgou que o aumento havia sido de 16%. Do total, 25% da madeira ilegal é destinada ao estado de São Paulo, que usa o material principalmente na construção civil e na indústria de móveis. Por isso, a PMA agora trabalha também com o objetivo de coibir o consumidor, aquele que financia e incentiva o criminoso.

Enquanto isso, Sandra precisa se manter firme diante de típicas intempéries brasileiras para poder continuar a desenvolver seu trabalho, referência em todo o mundo (mas desprezado por autoridades brasileiras). Um caso irônico: seu laboratório, onde se guarda o valioso acervo de espécies arbóreas do estado de São Paulo, está infestado de cupins. O perigo foi descoberto em julho deste ano, quando algumas paredes do imóvel foram pintadas. Então, durante o trabalho, percebeu-se a infestação. Desde quando a casa se tornou endereço para a xiloteca, há seis anos, nunca foi feita uma reforma. Sem o investimento, a única medida para controlar os insetos é monitorá-los e torcer para que não cheguem até a coleção de madeira, que é um verdadeiro banquete para eles.

2020-02-05T19:13:42-03:00